Hoje, 2 de novembro, Mark Wenner faz 78 anos. Ele é o gaitista, cantor e fundador dos Nighthawks, a banda de Washington que há mais de cinquenta anos faz do palco o seu endereço. A data está no calendário de história do blues da Big Train Blues e bate com a idade dele numa matéria do The Beacon de novembro de 2021.

Mark Wenner tocando gaita amplificada com os Nighthawks em Harrisonburg, Virgínia, em 2008
Mark Wenner em Harrisonburg, Virgínia, em 11 de julho de 2008. Foto: Artaxerxes, via Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY-SA 3.0.

Do rádio de Washington ao conselho de Slim Harpo

Wenner cresceu em Chevy Chase, Maryland. Como ele contou à Making a Scene, no colégio deixava o rádio nas emissoras negras da região e pegava ônibus aos sábados até o Howard Theater para ver as turnês de R&B, soul e jazz. Quem o fez levar a gaita a sério foi Paul Butterfield, com “Born in Chicago”, em 1965.

Numa entrevista ao Blues.Gr, ele conta que saiu comprando todos os discos citados num artigo de Tony Glover na revista Sing Out, e assim chegou a Muddy Waters, Slim Harpo, Lightnin’ Slim e Lazy Lester. Em Nova York, estudando na Columbia, a gaita foi ganhando espaço dos estudos. E o próprio Slim Harpo, que ele conheceu pessoalmente, deu o recado: você toca bem, agora monta uma banda e fica com ela. Melhor conselho de carreira que um gaitista jovem podia receber.

Trezentos dias por ano

Ele obedeceu. Voltou a Washington em 1972, começou a banda com o guitarrista Jimmy Thackery e, em 1974, a formação clássica fechou com Jan Zukowski no baixo e Pete Ragusa na bateria. Ao The Beacon, Wenner lembrou que eles trabalhavam 300 dias por ano. Abriram para Muddy Waters, James Cotton e Carl Perkins, e Muddy virou amigo: por algumas noites, Wenner chegou a substituir Jerry Portnoy na banda dele.

Dessa convivência saiu Jacks and Kings, gravado no fim dos anos 1970 depois de dois shows por noite no Cellar Door, entrando pela madrugada no estúdio, com Pinetop Perkins, Bob Margolin e Calvin Jones. Mais tarde veio Last Train to Bluesville, que deu à banda o Blues Music Award de disco acústico, em 2011.

O que eu escuto nele

Wenner não é o gaitista do solo mais veloz, e nem quer ser. Na mesma entrevista, ele diz preferir o jeito simples de Jimmy Reed e Slim Harpo, e define assim o instrumento: “The harmonica is played by inhaling and exhaling.” Parece óbvio, mas é a lição inteira. Quando a respiração cai dentro do groove, duas notas bastam.

Pra quem toca, minha sugestão é ouvir Jacks and Kings e depois Last Train to Bluesville. No primeiro, o próprio Wenner descreve o som como um Fender Bassman 1956 numa escadaria, bem alto. No segundo, a banda tira o volume e sobra a frase. Depois, faça um blues de doze compassos usando só três notas, sem pressa, encaixando a respiração no pulso da banda. É um exercício chato por cinco minutos e útil pelo resto da vida.

Gosto de pensar no Wenner como prova de que blues também se aprende ficando: ficando na banda, na estrada, perto de quem sabe. Parabéns, Mark, e obrigado pelas noites.

— Ale Ravanello