Hoje, 24 de outubro, é aniversário de Sonny Terry, o gaitista que fazia a gaita soar como trem, cachorro de caça e gente gritando no campo, tudo ao mesmo tempo. Ele nasceu Saunders Terrell em 1911, perto de Greensboro, na Geórgia (o arquivo de Alan Lomax registra 1912, e algumas fontes repetem esse ano).

Sonny Terry tocando gaita no festival Nambassa, na Nova Zelândia, em 1981
Sonny Terry no festival Nambassa, na Nova Zelândia, em 1981. Foto: Michael Bennetts / Nambassa Trust and Peter Terry (nambassa.com), via Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY 2.5.

Um menino que aprendeu com o pai

Segundo a biografia do National Endowment for the Arts, foi o pai quem ensinou a ele os primeiros blues e as imitações de trem e de cães. Dois acidentes, um aos 11 e outro aos 16 anos, tiraram a visão dos dois olhos. Sem poder trabalhar na roça, a música virou o ofício. A Britannica cita ainda a influência de DeFord Bailey, o gaitista do Grand Ole Opry, o que faz todo o sentido quando a gente ouve as locomotivas dos dois.

No começo dos anos 1930, em Durham, na Carolina do Norte, ele tocava na rua com Blind Boy Fuller e com o Reverendo Gary Davis, e acompanhou Fuller em discos gravados entre 1937 e 1940.

Carnegie Hall por acaso

A história de 1938 é das melhores do blues. John Hammond foi até Durham para levar Fuller ao concerto From Spirituals to Swing, no Carnegie Hall. Fuller estava preso, e Hammond levou Terry no lugar dele, como conta o arquivo da Association for Cultural Equity. Na véspera de Natal daquele ano, Alan Lomax gravou Terry para a Biblioteca do Congresso.

Fuller morreu em 1941, e aí começou a dupla com o violonista Brownie McGhee, que durou cerca de quarenta anos entre brigas e reencontros. Os dois foram até a Broadway: Terry esteve em Finian’s Rainbow, em 1947, e a dupla entrou na montagem de Cat on a Hot Tin Roof dirigida por Elia Kazan em 1955. Nos anos 1960, Terry rodou os festivais de folk e blues pelo mundo.

O que eu escuto nele

O NEA descreve a técnica de Terry como tocar a gaita num tom diferente daquele em que ela é afinada. Pra quem toca, é a nossa velha segunda posição, o cross harp. Ele controlava a respiração, fechava as mãos em concha em volta da gaita e entortava as notas, e no meio disso soltava a voz, aqueles gritos curtos entre uma frase e outra. A gaita e a voz viram um instrumento só.

Pra quem está começando, minha sugestão é ouvir “Locomotive Blues” e “Lost John”, do disco Harmonica and Vocal Solos, que está no catálogo da Smithsonian Folkways. O trem ali não é efeito decorativo: é o groove da música inteira. Tente tocar junto só o ritmo da respiração, aspirando e soprando no tempo, antes de pensar em nota. É o melhor exercício de pulso que conheço.

Aqui está “Lost John”, no vídeo que a própria Smithsonian Folkways publicou no YouTube:

Em 1975 ele publicou o livro The Harp Styles of Sonny Terry. Recebeu a National Heritage Fellowship em 1982, junto com McGhee, foi ouvido na trilha de A Cor Púrpura em 1985 e morreu em 11 de março de 1986, em Mineola, Nova York. Também está no Blues Hall of Fame.

Toda vez que alguém me pergunta como fazer a gaita “falar”, eu mando ouvir Sonny Terry. Parabéns, Sonny, e obrigado pelas locomotivas.

— Ale Ravanello