Um disco de gaita que chegou pra mim pela resenha de John Sacksteder na Blues Blast Magazine, publicada no dia 12: “Pure Blues”, do gaitista Paul Barry, de Minneapolis e St. Paul. É o terceiro álbum dele, saiu em agosto de forma independente e tem dez faixas. Fui atrás do resto no site do próprio Barry, e a história por trás do disco é tão boa quanto o repertório.
O aluno de William Clarke
Paul Barry conheceu William Clarke em 1983, virou protegido dele e em 1985 foi morar com o mestre em Los Angeles. Pra quem não liga o nome: Clarke foi um dos grandes da gaita amplificada da Costa Oeste, tocou ao lado de George “Harmonica” Smith de 1977 até a morte de Smith, em 1983, e dominava tanto a diatônica quanto a cromática. Estreou na Alligator com “Blowin’ Like Hell”, em 1990, e ganhou o prêmio de melhor disco de blues contemporâneo com “The Hard Way”, de 1996, o mesmo ano em que morreu, aos 45.
Barry levou essa lição a sério. Em 2023 publicou a biografia “Blowin’ Like Hell, The William Clarke Story”, que entrou no Minnesota Blues Hall of Fame em 2024. Antes disso, nos anos 80 e 90, acompanhou o chicagoano Otis “Big Smokey” Smothers, e uma sessão de 1992 com ele virou “That’s Alright”, lançado em 2016 como a última gravação de estúdio de Smothers.
O que tem no disco
O repertório é uma pequena aula de onde vem esse tipo de gaita. Tem duas do Clarke, “Pawnshop Bound” e o instrumental “Chromatic Jump”, na cromática. Tem duas de Otis Spann, “I’m a Bad Boy” e “Lightnin'”, “Time Gets Tough”, de Jimmy Witherspoon, e “Coming Home Baby”, de Ben Tucker, mais três músicas do próprio Barry. Ou seja: Chicago, jump blues e um pé no jazz, exatamente o caldo de onde Clarke tirou o som dele.
E tem um detalhe que me deixou contente: o guitarrista Igor Prado toca em três faixas. Igor é um dos nomes brasileiros mais respeitados no blues lá fora, e o disco “Way Down South”, de 2015, chegou ao topo da parada da Living Blues. O cantor Tad Robinson também aparece como convidado em “Waiting for Your Love”. Sobre a voz de Barry, a Blues Blast diz que ela é “comfortable and well suited to his blues presentation”.
Pra ter uma ideia do som da banda, este é o vídeo que o próprio Barry escolheu para a página de vídeos do site dele: “Bad Boy”, ao vivo no Shaw’s, em Minneapolis, em 2023.
Por que isso importa pra quem toca
A gaita de blues sempre passou de mão em mão. Little Walter, Big Walter, George Smith, depois William Clarke, depois quem aprendeu com ele. O que Barry conta da filosofia do mestre é simples: aprender primeiro com quem criou a linguagem e só então procurar a própria voz. É o caminho que eu recomendo pra todo aluno. Antes de inventar, ouvir muito Spann, muito Witherspoon, muito Clarke tocando cromática em cima de um swing.
Se você nunca ouviu William Clarke, comece por “Blowin’ Like Hell” e depois volte pro disco do Barry. Dá pra perceber o fio que liga os dois, e também onde o aluno resolveu seguir sozinho.
Gosto de ver um gaitista dedicar um disco e um livro a quem ensinou a ele. Quem toca gaita sabe quanto deve a quem veio antes, e eu vou ouvir “Chromatic Jump” com a cromática do lado esta semana.
— Ale Ravanello