Billy Branch fez 75 anos no último dia 3 de outubro e, dez dias depois, apareceu numa entrevista longa a Brant Buckley, publicada pela American Blues Scene. Li com calma, porque pouca gente viva carrega tanto da gaita de Chicago quanto ele. E a conversa vai além do disco mais recente: Branch acha que Chicago ainda deve ao blues um museu à altura do que a cidade fez pela música.

Billy Branch tocando gaita no Legendary Rhythm and Blues Cruise em 2008
Billy Branch em 2008, no Legendary Rhythm and Blues Cruise. Foto: Karen Keller, via Wikimedia Commons — licenciada sob CC BY 2.0.

Quem é Billy Branch

Branch nasceu em 1951, em North Chicago, e entrou no blues pela porta da frente. Willie Dixon o descobriu quando ele ainda estava na faculdade, e ele passou anos na estrada com o Chicago Blues All-Stars, primeiro aprendendo ao lado de Carey Bell e depois assumindo a gaita da banda. Junior Wells e James Cotton também estão entre os mentores que ele cita. Em 1977 formou os Sons of Blues, que seguem com ele até hoje. Tem três indicações ao Grammy e está no Blues Hall of Fame. Tive a sorte de dividir palco com ele, e dá pra sentir de perto o quanto essa linhagem está viva no jeito dele de tocar.

O que mais me impressiona, porém, é o trabalho fora do palco. O programa Blues in Schools, que ele conduz desde 1978, já levou aulas de blues a escolas da Europa, da Ásia, do México e da América do Sul. Pra quem ensina gaita, isso pesa tanto quanto qualquer disco.

O disco

The Blues Is My Biography saiu em novembro de 2025, como primeiro lançamento do selo Rosa’s Lounge Records, de Chicago, com produção de Larry Batiste. São onze músicas, todas compostas ou coassinadas por Branch, com naipe de sopros e vozes de apoio bem presentes. Bobby Rush canta e toca gaita em “Hole in Your Soul”, Shemekia Copeland participa de “Begging for Change”, parceria com Ronnie Baker Brooks, que também toca guitarra na faixa, e o repertório passa por um blues com pegada de hip hop em “How You Living” e por um reggae em “Ballad of the Million Men”. Pra quem toca, eu começaria por “The Harmonica Man”, a mais autobiográfica do disco. Na entrevista, ele diz que vai brigar por uma indicação ao Grammy com esse trabalho.

O museu que falta

A parte que mais me fez pensar foi a do museu. Branch lembra que a cidade da Chess e da Vee-Jay virou a capital do blues e alimentou a invasão britânica, mas nunca ganhou uma grande casa dedicada ao gênero. Conta que já houve um projeto com 40 a 50 milhões de dólares disponíveis, que morreu porque ninguém achou um terreno. Pra ele, não é má vontade, é descuido de quem se acostumou a ter o blues por perto. Vê o Mojo Museum, na antiga casa de Muddy Waters, como um passo pequeno e bem-vindo, e aponta Memphis como exemplo de cidade que sabe mostrar a própria música. A ideia dele cabe numa frase: “When you land in Chicago, you should hear a blues band.”

Concordo, e acho que isso vale pra qualquer cidade que tem blues. Museu é importante, mas a memória começa antes, com gente tocando, ensinando e contando a história de quem veio antes. Billy Branch faz as três coisas há quase cinquenta anos.

Vou ouvir o disco de novo esta semana, começando por “The Harmonica Man”. E gostei de ver o D.K. Harrell entre os jovens que ele recomenda na conversa, ao lado de Mathias Lattin. O Harrell eu conheço bem: já toquei com ele mais de uma vez no Mississippi Delta Blues Festival, com o Ale Ravanello Blues Combo e com a Mari Kerber. É bom ver um mestre da gaita de Chicago apostando no mesmo nome.

— Ale Ravanello