Saiu na última sexta, 9 de outubro, “One Step Ahead of the Blues”, disco novo de Sherman Holmes pela Nola Blue Records. Fiquei sabendo pela resenha de Sara Bao na revista italiana Il Blues, que define o álbum como “un ibrido sonoro ricco di sfumature”, e fui atrás do resto.
Quem é Sherman Holmes
Pra quem não liga o nome à pessoa: Sherman era o baixista dos Holmes Brothers, o trio que ele dividia com o irmão Wendell Holmes, na guitarra e no piano, e com Popsy Dixon na bateria. Os três saíram da Virgínia, foram tocar nos clubes de blues do Harlem e acabaram gravando pela Rounder e depois pela Alligator, com discos como “Speaking in Tongues” (2001), “Simple Truths” (2004) e “Brotherhood” (2014). Em 2014 receberam a National Heritage Fellowship do National Endowment for the Arts. Em 2015 Sherman perdeu os dois parceiros: Popsy morreu em janeiro e Wendell em junho. Ele seguiu em frente com o Sherman Holmes Project e lançou “The Richmond Sessions” em 2017.
O disco
Quem montou o time foi o produtor Andreas Werner. Segundo o material do próprio lançamento, ele conheceu os Holmes Brothers num show em Zurique em 2004 e reencontrou Sherman no International Blues Challenge de 2019, em Memphis. Werner também toca guitarra na Funky Chester Rhythm Section, que faz a base com Harvey Thompson Jr. nos teclados, Paul Ossola no baixo e Lynn Williams na bateria. Por cima entram os Muscle Shoals Horns, os Blind Boys of Alabama e um coro que ganhou o apelido de “Honorary Holmes Sisters”: Catherine Russell, Joan Osborne, Amy Helm e Ada Dyer.
São onze faixas, e duas me chamaram atenção antes mesmo de ouvir: “Strike While the Iron Is Hot” e “Fair to Midland”, composições de Wendell Holmes que nunca tinham sido lançadas. Tem também uma versão nova de “I’m So Lonely”, música de Sherman que os Holmes Brothers já tinham gravado em “Simple Truths”, e duas canções dele mesmo, “Voices in the Hall” e “Oh America (Still Standing)”. Os créditos completos estão na matéria da Making a Scene e na página do disco no Bandcamp.
Por que eu presto atenção nisso
Os Holmes Brothers sempre foram uma aula de como blues, soul e gospel cabem na mesma banda sem ninguém pedir licença. Um trio enxuto, vozes juntas e muita igreja no jeito de cantar. Pra quem toca blues hoje, é um lembrete de que o gênero nunca foi só doze compassos e solo de guitarra: boa parte da força vem do canto em grupo, das respostas, do arranjo que deixa espaço.
E tem um detalhe que me pega como músico. Gravar canções inéditas do irmão, mais de dez anos depois de perdê-lo, é um jeito bonito de manter a banda viva. O blues sempre funcionou assim, passando adiante o que a gente recebeu de quem tocou junto.
Sherman nasceu em 1939 e segue gravando disco novo, agora com sopros de Muscle Shoals e os Blind Boys of Alabama nos vocais. Vou ouvir com calma esta semana, começando pelas duas do Wendell.
— Ale Ravanello